17 de abr de 2012

Alma e Glicose: No dia em que a fome devoradora foi devorada



Era uma fome dum tanto assim. Fome de quê, não sabia - ou esquecia?
Desde o passado, era a Fome – crescendo mimosa, comendo faminta, num crescente que só se ia crescendo. Comendo num gerúndio sem fim, a Fome nunca se via particípio. Também não se considerava abstrata - para além de concreta, era A Fome, de vontade própria e tudo.
De tão fora da lei, de tão de regras próprias, a gramática nunca lhe cabia bem, e nunca lhe era servido um lugar para se aconchegar. Foi assim - tanto se escondendo que se encontrou assim mesmo, escondida. E, lá aprisionada, a vontade de ser vista e resgatada foi engordando imperiosa.
Um dia, lá de dentro, dum grande vazio, O Vazio-que-era-habitado, pediu comida assim:
- Fome afetiva!
- Fome monetária!
- Fome de doce!
E assim foi se substanciando.
- Fome de paz!
- Fome de amor,
de pai, de mãe!
Nossa, mas que vazio tão cheio de tanto!
- Fome assim!
- Fome, fome..
. ?
- Fome de alma!
- Fome de mim!
- Fome de Eu!
A fome que já havia se substanciado de tantas outras coisas, tão revestida de peles e enormes retalhos de tantos outros nomes: tanto tempo alimentada, sem ser nutrida! Tão solitária e selvagem, tão amiga, tão minha, tão-eu.
Vez ou outra, quando Ela bate na porta, logo me certifico de que sejam servidos uma gostosa xícara de chá e um bom lugar para que Ela se sente ao meu lado, e pergunto: “Hoje, você está com fome de quê?”.
Por hoje, fim (de glicose)!
Grinis Miyashiro
psicóloga
 participa do  Mulheres em Círculo  e do Grupo de Estudos

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