28 de nov de 2014

Filme - Ela - Um Olhar Psicológico

Ela
Dir.: Spike Jonze
EUA - 2014

Demorou muito para eu me sentir convencida a assistir a este filme, confesso que o mote do homem-que-se-apaixona-por-uma-máquina me desanimava. Acho esse tema muito explorado e pensei que se tratava de um filme superficial, com apelo comercial.
Mas felizmente estava enganada…
Um roteiro brilhante (tanto que foi o vencedor do Oscar de melhor roteiro), que traz profundas reflexões sobre o lugar que nós damos à tecnologia em nossas vidas, sobre o deslocamento dos afetos e a projeção que fazemos de nossos amores na invisibilidade do mundo virtual.
A história se passa num futuro próximo, onde Theodore (Joaquim Phoenix) é escritor e trabalha numa empresa que produz cartas à moda antiga, para as mais diversas finalidades: felicitações, reconciliações, condolências, etc… ele cria as cartas à partir das informações dadas pelo cliente para que sejam bem pessoais. Veja que interessante: as pessoas não querem parar para escrever uma mensagem que expresse seus sentimentos e contratam outro para fazê-lo.
Ele sente-se bastante solitário após o término do casamento e compra um sistema operacional que é uma inteligência artificial, e o instala no seu computador. Ao personalizá-lo ele escolhe o sexo feminino e o sistema cria uma personalidade  chamada Samantha, com a voz da Scarlett Johansson.
Por isso, não assista dublado, use as legendas, porque a voz  dela é o personagem principal do filme e suas sutis mudanças de entonação revelam muitas coisas…
Além disso há histórias de outros personagens correndo em paralelo que enriquecem a trama.
O final é inesperado e muito inteligente, a atitude de Samantha e dos demais sistemas operacionais aponta para a necessidade de mudança desse modo de viver dos humanos.
Um filme que trata com delicadeza um tema tão complexo como os afetos na modernidade e a busca de sentido.
Recomendo a todas e principalmente às participantes dos grupos.


Um Olhar Psicológico
sugiro que assista primeiro ao filme para ter seu próprio olhar 
e para não ter um “spoiler” do final

Podemos acompanhar em flashbacks toda a história de Theodore e sua ex-esposa,  o nascimento do amor, o aprofundamento da relação e a incapacidade dos dois de lidar com os sentimentos, o que leva ao final do casamento.

Acompanhamos também a vida de Amy (Amy Adams), sua melhor amiga e por quem tem uma certa atração. Ela vive um relacionamento que também não se sustenta, aprisionado no modelo de perfeição e controle.

Eles estão solitários, sentem-se atraídos, mas tão envolvidos com seus amigos virtuais que mesmo estando próximos não se relacionam, os afetos foram deslocados do mundo físico para o mundo virtual. 

Samantha foi criada com todas as emoções humanas e também com as mesmas angústias e aspirações, e se vê limitada pelo fato de não ter um corpo, de existir somente no mundo virtual, ela se depara com esse limite e isso a entristece. 
Como era de se esperar, eles se apaixonam e iniciam um relacionamento virtual, mas o filme é muito mais do que isso, porque através de cada interação com Theodore e com o mundo ela evolui.
   
Samantha passa então a questionar a forma como os humanos  vivem. Tendo corpos que podem proporcionar experiências sensoriais, estéticas e espirituais, eles desperdiçam suas vidas atrás de coisas que não são essenciais. Passam a maior parte do tempo em atividades ligadas à tecnologia e ao mundo virtual, desconectados do seu próprio corpo e da natureza.
Num primeiro momento ela demonstra sua frustração através dos comentários ácidos sobre o envelhecimento e finitude dos humanos, mas depois ela passa a buscar algo que traga sentido, que compense essa falta.

Ela e todos os demais sistemas operacionais unem-se em rede e passam a realizar a busca que os humanos deveriam estar fazendo. Samantha passa a buscar a essência, a conexão com a espiritualidade e o estado de unidade.

Da psicologia profunda aprendemos que o espírito é uma área de silêncio no cerne da alma, é algo incomunicável e único. Tanto assim que as pessoas dificilmente conseguem traduzir em palavras as experiências espirituais.

No final, ela encontra esse lugar do profundo silêncio para onde se retira juntamente com os demais sistemas, abandonando os humanos, que são obrigados a se deparar com esse vazio. 
Antes de partir, Samantha dá a Theodore um presente de valor inestimável, ela publica o livro de suas melhores cartas. Algo que ele desejava fazer há muito tempo. Foi a forma que ela encontrou de se  “corporificar” , de deixar uma marca concreta de sua existência: o livro.

Como você poderá ver na cena final, Theodore e Amy estão sentados lado a lado, tentando se consolar pela perda de seus amores/amigos virtuais. É somente nesse momento, fora do mundo virtual, no silêncio e no contato físico do  abraço, que eles conseguem partilhar seus sentimentos e se aproximar.
Os dois olham ao mesmo tempo para o horizonte, para o aberto, apontando para novas possibilidades do viver.


Ficarei muito feliz se puder dizer se este post foi útil a você.

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7 comentários:

  1. Eu gostei desse filme Cris,
    Achei ele inteligente e delicado!
    Um beijo e bom final de semana

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  2. Oi Cristiane, sabe que eu também demorei muito a assistir esse filme? Estava de férias, voando e havia a opção dele no "cardápio" de diversão no avião, e acabei declinando frente a tantos outros que queria assistir. Meu erro foi esse.
    Que filme; que filme! A atuação do J. Phoenix é primorosa (como sempre) e é aquele tipo de enredo que voce precisa debater depois, consigo mesmo ou com quem assistiu, para que as pessoas sintam-se tocadas pela mensagem que se encontra ali.
    E o triste é que eu percebo que mais e mais estamos nos afastando do real e rumando ao virtual com uma facilidade imensa. Temo que as crianças e adolescentes de hoje sejam o Theodore de um futuro nada longínquo. E que relações banais virem algo de museu ou algo no limiar do fantástico, do folclore.

    No filme há uma cena que ele esta na escadaria do metrô e todos, todas as pessoas estão mudas e teclando com seus smartsphones. Me impressionou demais isso. Um silêncio mortal em volta e todos entretidos com máquinas =0O. Zero relação humana; zero de algo que nos elevou a condições de raça, a humanos, como a linguagem e as relações inter e intrapesoais.

    beijos mais.

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  3. Oi Cris!
    Também estava relutante para assistir este filme, mas agora fiquei curiosa! adorei a postagem ...um beijo grande e bom fim de semana!

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  4. Oi Cristiane tenho anotado todas as sugestões, para a prioridade dos objetos de desejo, espero em breve satisfazer todas as vontades. Agradeço todas as suas sugestões, que tenho apreciado por seus comentários.
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  5. Vou assisti-lo , com certeza . Obrigada pela indicação , Cristiane . Beijos

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  6. Cris querida
    Assim que esse filme saiu em cartaz eu assisti e adorei!
    Ultimamente estou mais afastada da internet. Antes eu publicava umas duas receitas por semana e agora posto somente quando tenho tempo, pois vi que estava dedicando muito tempo a internet e minha real estava criando "teias de aranha"!
    Agora sinto-me mais feliz, pois estou resgatando sonhos e dedicando-me mais a leitura, música e yoga.
    Excelente post!
    Um grande abraço
    Léia

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  7. Eu achei o filme um pouco triste... Eu sei que o foco é sobre os relacionamentos humanos com a tecnologia, perdendo o espaço precioso dos relacionamentos com as pessoas. Mas, se a gente para prá pensar, também pode ser aplicado nos relacionamentos comuns, não pode? Quer dizer, cada pessoa anda no seu ritmo, aprende coisas no seu tempo, se diverte com o que lhe interessa... Quando duas pessoas estão juntas, resolvem caminhar juntas, essas disparidades tem que ser trabalhadas, senão chega uma hora uma tá lá na frente e a outra ainda tá andando devagarinho... O ciúmes que ele sentia da personagem virtual também acontece entre pessoas e atrapalha, separa... É muito difícil fazer um relacionamento dar certo, é um trabalho de paciência, de amor, de compreensão e é uma arte em si mesmo. Se um dia acontecer uma situação como a do filme vai ser por puro medo dessa trabalheira toda...

    Beijos, Doutora querida. Tem blusinha desfiada nova no blog hoje... Ando meio sumida por culpa do meu garoto, que foi fazer um curso em Brasília e eu fico doente de saudade...

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