1 de nov de 2015

Casa Para Uma Mulher Arquivelha


 

Quando criança
Sentia-me ao mesmo tempo
Uma menina solitária,
Franzina
E uma velha muito sábia,
Muito digna,
Que conhecia coisas humanas e divinas.
Nessa casa,
Cheia de quartos e quinas,
Viverá esta velha,
Arquivelha que sou eu.
Será uma casa silenciosa
Onde realizarei trabalhos simples
Como acender lampiões
No fim da tarde.
Será uma casa
Quase casulo
Onde aceitarei as condições da existência,
Tecerei fios de seda
Em direção ao infinito.
Será uma casa resistente
Capaz de suportar blocos gigantes
Que desabem
Em avalanche
Sobre o teto.
Nessa casa
Serei cada vez mais antiga,
Prudente,
Erudita,
Fiel ao espírito que me agita
E ao qual cedi a palavra.
Nessa casa
Nada perturbará a alma de meus ancestrais,
A atmosfera de prece:
Vida que se cumpre
E desaparece.

Raquel Naveira
In: "Casa e Castelo". São Paulo: Escrituras, 2002. p.51,52.


Essa poesia me toca tão profundamente, sinto como se ela falasse de mim. 
Para superar as adversidades que enfrentei desde cedo, 
precisei ser menina e velha ao mesmo tempo. 
Na verdade, acho que nasci arquivelha e agora estou rejuvenescendo...

Uma Ótima Semana Para Todas!






17 comentários:

  1. Linda e tocante poesia mesmo e a imagem adorei! bjs, chica

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  2. Lindo poema, fala um pouco de cada um de nós, pois envelhecer é a sina de quem vive, não tem outro jeito!
    Amei ler!
    Abraços!

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  3. Oi Dra. Cristiane!
    Faço minhas suas palavras, pois também me sinto assim, envelheço e me remoço!
    Acho que isso é bom, não é mesmo?
    Amei!
    Beijo carinhoso!

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  4. Bom dia, Dra. Cristiane!

    Não é a primeira vez que visualizo o seu blogue, mas, ficava por aqui lendo o que você postava, da sua autoria ou não, como que encantada e deslumbrada, mas, hoje, não irá ser desse jeito. Palavras havia e há muitas, só que, as reflexões saídas das leituras, parece que as aprisionavam.
    Já tenho lido comentários seus na blogosfera, e tudo está de acordo com a minha primeira ideia, a inicial, que é excelente.

    Sou portuguesa, como já percebeu, de Lisboa, mais propriamente, não tenho painel de seguidores no meu blogue, por opção, mas como fixo, facilmente, o nome dos blogues, que me comentam e aos quais, naturalmente, agradeço e retribuo é mega fácil estar com todos os meus amigos blogueiros. Evidente que o seu "Mulheres em Círculo" tem um título fora do comum, e eu gosto de coisas invulgares, portanto, não vou esquecer.

    A tratei na saudação inicial por (de) Doutora, porque em Portugal, todas as pessoas que tenham uma ou várias licenciaturas assim são chamadas. Já sei que no Brasil, e se tratarmos alguém por Doutor/a, excetuando talvez os médicos/as, vocês dizem: ah, se você me trata por (de) doutor/a, tenho que lhe cobrar a consulta. É agradável essa vossa predisposição para os lemas da revolução francesa: liberdade, igualdade e fraternidade.

    Estive relendo "Quem Sou Eu", o seu perfil, e até fiquei "assustada", porque você é um ser quase completo, perfeito e com imensos talentos. É sempre assim, minha querida amiga! São as infâncias difíceis, em que as meninas e os meninos têm de ser já "adultos" na mentalidade e na realização de atos, que não deveriam ser da competência deles, que originam esses "monstros" de sabedoria.

    Depois de tanto "trelelé", como vocês dizem/falam aí, vamos então comentar o poema postado e que tanto lhe diz. Compreendo, lindamente, porque com você condiz.
    Começando pela imagem, que encima o poema, a acho uma casa meia de bonecas, meia castelo, assim, dos contos de fadas, mas com algum "secretismo" e ausência do mundo exterior. Cinco estrelas!
    Em relação ao poema, dá que pensar, porque a autora se vê, desenha dois mundos, na sua imaginação, que já está determinada e que é positiva.
    Essa "velha" tem mais "vantagens" do que as outras, porque foi "velha" quando deveria ser criança, e o era, na realidade, só que as circunstâncias a fizeram ter esse posicionamento. Aqui, entre nós, eu sei, nós sabemos, que ela brincou, nem que fosse mentalmente com bonecas e fez suas travessuras.
    Com o avançar dos dias, do tempo, da idade, essa casa tem de ser mais segura e erudita, logicamente, mas os fios, as "grades" da casa, são daquele tipo de seda natural, que ela sempre usou, porque ela continua fiel às suas bases, aos seus princípios, e dos quais nunca abdicará.
    O corpóreo desaparecerá, naturalmente, porque é matéria, mas a alma continuará sendo, simultaneamente de menina e de "velha".

    Um domingo luminoso.

    Beijos, com apreço e carinho.

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    1. Nossa Céu, você me deixou sem palavras...Muito obrigada pelo carinho, mas tenho muito o que aprender ainda...
      vou fazer uma visita ao seu blog.
      Não precisa chamar de doutora, somos amigas da blogosfera.
      Grande e carinhoso abraço

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  5. Dra. Cristiane, sabe colocar, como ninguém, os sentimentos de quem precisou ser adulta, antes de fechar o ciclo de menina. Acredito, que por isso, a menina, ainda presente, consiga se renovar em esperança, buscando sempre uma forma de ser feliz.
    Depois de tantas cascas, que engrossam nossa casa, ainda ter a leveza e a pureza da menina.
    Eu a admiro pela delicadeza e ternura com que se afirma.
    Tentei ser doce por muito tempo, até embrutecer!
    Agradeço, bom feriado, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  6. E na fé e na força de vontade, nas orações, no amor vamos vencendo as adversidades da vida. Linda poesia. Boa semana pra você com luz e força. No Poesia tem muitas novidades

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  7. Fui levada pela voz suave de cada verso tão profundamente entoado na minha memória antiga.Os sentimentos dessa impressão que guardo em lugar secreto do coração, afloraram aqui, nas linhas deste poema-relato vívido em tantas meninas arquivelhas, e em mim também.
    Confortante poética, esta que me abraça e revela.

    Obrigada, Cris.
    Bjos e um feriado de paz.
    Calu

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  8. Gostei muito do texto, invulgar, lindo e mágico, boa semana amiga, beijo

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  9. Oi Cristiane!
    Que linda poesia. Acho que todas nós somos velhas em algum momento.
    A poesia me fez pensar que todos deveriam ter essa casa dentro de si,resistente, que abriga nosso espírito imortal e o protege das adversidades da vida,para que o desânimo não faça morada.
    Um abraço carinhoso,
    Sônia.

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  10. Oi Cris,
    Amei a poesia. Eu tenho e sempre tive um lado arquivelha, mas outro lado meu demorou muito para amadurcer e ainda tenho dúvidas se o fez completamente.
    Bjs

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  11. Muito lindo o poema, Dra. Cristiane! Até pensei que era de Cora Coralina que versa sobre leveza e sobriedade ao mesmo tempo. Quando era criança fui "taxada" de "adulta" por um grupo de crianças do meu convívio - incluindo meu irmão mais velho; dada a minha natureza introspectiva e filosófica que não mudou (é minha natureza, ué! rs). Além disso, também tive de ser menina velha para superar adversidades. Os mais velhos ao meu redor não tinham maturidade para orientar o meu "prumo". Tive de me virar. Também sinto estar rejuvenescendo agora... Beijos!

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  12. Que poesia interessante e profunda, temos muito para refletir com ela. Uma boa noite prá ti querida. Bjs

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  13. Olá, Cristiane. Estou aqui escrevendo sobre infância e sabedoria, sobre sonhos e lucidez, e eis que chego aqui para ler esse lindo poema e seu depoimento. Com certeza influenciará meu escrito. Só faço uma ressalva: em "vida que se cumpre e desaparece". Nada desaparece, como disse Drummond: "De tudo fica um pouco...."
    Grande abraço, belos dias.

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  14. Cristiane , acho que bem menina eu já tinha uns 90 anos ...
    Depois do nascimento dos meus filhos comecei a rejuvenescer e hoje estamos quase com a mesma idade , rs,rs,
    Gostei demais deste seu post .
    Obrigada por partilhá-lo conosco .
    Beijos

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