17 de dez de 2017

Sobre Lobas, Matilhas e a Grande Jornada

Pintura de Dimitra Milan

Nada sei sobre o exigente dia a dia das formigas e das abelhas. Mas, se me procura para ouvir o que aprendi sobre lobas e matilhas, ah, nesse caso, devo convidá-lo para um chá. Você tem tempo? Que bom! Pois a primeira coisa que precisa saber diz respeito a ele, o tempo. 

Lobas não se deixam oprimir pelo relógio do mundo. Como? Ora, porque aprenderam com as que vieram muito antes delas a auscultar o compasso íntimo e secreto do seu interior. Quando se rendem a ele, você não imagina quanta beleza. Elas bailam e rodopiam nos campos selvagens da liberdade. São livres porque confiam em suas intuições, em sua força vital, nos ciclos de vida-morte-vida impressos em cada Ser sob o Sol. São mulheres que sabem. 

Sabem esperar a hora certa das coisas brotarem. Não precisam de respostas instantâneas. Mais importante é decifrar os movimentos que a vida anseia realizar em seus corações. Por isso, atravessam suas esperas uivando, cantando, pintando, bordando, rezando. Sabem que a abundância se oculta no deserto. E que o crucial é não secar. 

Não confundem bondade com ingenuidade nem firmeza com rigidez. Seus valores mais caros são seus guias. Seguem o faro do discernimento talhado à mão e jamais negociam com o mal. Respeitam seus limites acima de tudo. Mas, fique tranquilo, não há por que temê-las. Isso não. Lobas são calorosas. Sabem acolher o outro com sua presença pura que observa sem julgar. E se abraçam o outro com verdade é porque antes, muito antes, foram capazes de abraçar si mesmas como a mãe que aconchega o filho amado. 

Aprenderam que habitar esse templo chamado corpo é um ato sagrado. Por isso, o amam como ele é. Imperfeito e deslumbrante. Cheio de viço e vigor. Um corpo vivo, que aceita o fluxo da existência e se permite fluir com ele. Ah, isso é muito importante. Lobas agradecem sempre. Sabem que cada respiro é um milagre. 

A certa altura da jornada, elas também descobriram que não há nada, absolutamente nada, que não possa ser perdoado. E que, ao contrário de apequenar, o perdão liberta. Purifica. Amplifica a visão. Sem ele, não há alegria - o néctar que fertiliza a vida. Apesar de tudo? Sim, garanto, apesar de tudo. 

Um dia elas compreendem que sua luz é muito mais forte do que aquilo que as feriu e que certas descidas, frias e escuras, são absolutamente necessárias. Das profundezas sombrias retornam mais completas. Donzela, mulher, velha. Ciclo após ciclo vão embalando em seus corações o mais profundo amor. Amor por si mesmas e por todas as criaturas. A fonte primordial da cura. 

Por tudo isso e muito mais, dou-lhe um conselho: Se encontrar uma loba pelo caminho, dobre o pescoço em reverência. Elas são raras. E incríveis!

Raphaela de Campos Mello
jornalista e escritora

Confira seus talentos
as lindas crônicas: Farelos São Chão
o belíssimo trabalho para noivos:  Nosso Amor, Nossa História

Recebemos este texto maravilhoso da nossa querida Rapha ao final da jornada 2017. 

Que possa inspirar a todas no Ano Novo!


Para ver a agenda de cursos em 2018, clique aqui.



4 comentários:

  1. OI Cris,
    O texto é maravilhoso. Não sei se sou tão loba assim, mas gostaria de ser.
    bjs

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  2. Simplesmente lindo.
    Marta.

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  3. Que lindo isso! Quando crescer quero ser loba... sou filhote ainda, com vontade, mas muitas lições a aprender. Grata por partilhar. Grande abraço.

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  4. Que texto lindo! Parabéns Rapha, é amoroso e incentivador! Lindo!!!
    Beijo

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