24 de fev. de 2021

Entregar-se para a Cura


Sigmund Freud, o criador da Psicanálise, em sua Obra "O Mal estar da Civilização" (de 1930), já dizia que o sofrimento humano provém de três fontes: da superioridade da natureza, da fragilidade de nossos corpos e da luta do homem contra o homem.  Destes três, o último é o único que poderia ser evitado; porque a força da natureza é infinita e nossos corpos continuarão perecíveis.

Isto cria em nós um estado de desamparo, que podemos buscar preencher de várias formas: filosofia, arte, religião... No entanto, com o avanço da disponibilidade de recursos tecnológicos criamos a ilusão de que controlamos nossas vidas, e isso é fonte de mais sofrimento, pois frequentemente estas tentativas são frustradas.  

Outro ponto importante é o quanto a vida moderna nos afasta da natureza e de seus processos. Não acompanhamos mais os ciclos vitais das plantas, dos animais, nem mesmo as mudanças das estações ou as fases da lua...Vivemos como se não fizéssemos parte dela e não estivéssemos submetidos às suas leis.

Antoine Lavoisier (químico do século XVIII) enunciou: "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Basta observar um pequeno jardim para  comprovar esta verdade, a vida está constantemente em transformação, independente de nossos desejos.

Marion Woodman,  em sua obra "A Feminilidade Consciente" nos diz: "Todos os  fenômenos do corpo e da alma fazem parte de nossa natureza humana. Não devem ser rejeitados, mas amorosamente acolhidos."

Portanto, a única saída possível para os sofrimentos humanos  é a ética do cuidado. E cuidar não é controlar.  O cuidado somente pode acontecer se houver aceitação e acolhimento. 

A rendição ou entrega é um grande passo no processo de amadurecimento psíquico. Ela não tem nada de passividade ou de comodismo como muitos acreditam, mas é fruto de um profundo trabalho interior.

Carl Jung, criador da psicologia profunda, já dizia que "é necessário se entregar a um poder superior, essa entrega somente acontecerá se aceitarmos nossa vulnerabilidade. No ponto de  vulnerabilidade  onde se dá esta entrega -  é aí  que entra a divindade. O divino se apresenta na chaga."

Isto me lembra um Koan japonês:

"Minha casa pegou fogo,
nada mais me oculta
a Lua deslumbrante."


P.S.: Este é um texto de minha autoria, se for compartilhar, por favor, cite a fonte.






Um comentário:

  1. Oi Cris,
    O texto é lindo e profundo e chegou em uma boa hora para mim, pois estou enfrentando uns problemas que parecem incontornáveis, mas nada como o amor ao que nos cerca para gerar soluções possíveis.
    Obrigada. Beijos

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